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Tempo, tempo, tempo, tempo...


Quando crianças o tempo não passava tão rápido quanto queríamos. Na adolescência, sentíamos que o tempo não existia e nada mudaria nunca. Na vida adulta, sentimos que o tempo nos atropela e que quando piscamos já voltou a ser segunda-feira. Quando chegamos à terceira idade, o tempo se mostra mais firme e presente, por vezes ameaçador.

Afinal, qual versão de nós tem razão: a criança, o adolescente, o adulto ou o idoso? Ou nosso animal de estimação, que aparenta não perceber o tempo passar a não ser que saiamos de casa por muito tempo?

A resposta é: todos. Todos temos, tivemos e teremos razão.

O conceito de tempo é abstrato, só pode ser medido através da sensação. Os gregos antigos tinham dois termos para falar sobre o tempo: chronos e kairós. Chronos se referia ao tempo que era possível medir no relógio, o tempo que chamamos de cronológico, aquele que se referia ao encadeamento de movimentos que enxergamos, ouvimos e sentimos. O tempo que os gregos chamavam de kairós se referia ao tempo oportuno, o momento certo, aquele em que acontecem momentos especiais.
A depender da fase de nossa vida, do momento em que estamos, do lugar onde vivemos e da cultura em que estamos inseridos, o tempo se movimenta de formas bastante distintas. Tenho certeza que você se lembra de dias que passaram bastante rápidos e de dias que se arrastaram.
Se pensarmos em chronos, o tempo é exatamente igual para todos os seres. Um minuto conta com sessenta segundos e não é possível alterar esta lógica. A grande questão é que não existimos em chronos e sim em kairós. Nossa vida é regida pelas experiências e não podemos isolar o que é lógico e concreto do que é emocional e vivencial. Pensando por este viés, será que estamos destinados a ser levados pelo tempo emocional durante toda nossa vida?
Talvez não completamente. É impossível fugir do impacto das experiências, mas é possível olhar para o momento presente com maior atenção e compreender as situações para saber atribuir sua devida importância. Isto por si só já nos dá maior compreensão sobre o ritmo de nosso tempo.

Mas como fazer isto?

Observando. Refletindo. Compreendendo. Evitando se distrair.
Nossa vida nos pede produtividade e velocidade constante. É fácil se deixar envolver pelas exigências de nosso tempo histórico (trabalhar, estudar, ser bem sucedido, feliz e, de preferência, com dinheiro). Que tal parar agora, observar como está seu corpo ,como você está se sentindo e observar o que está acontecendo ao redor? É um exercício simples, mas pode revelar grandes descobertas. Experimente por um momento e sinta o que é viver no agora. Sentiu algo? Ótimo, treine em outros momentos. Não sentiu nada? Tudo bem, tente novamente em outro momento.

Tenho certeza que se você observar o tempo por algumas vezes, perceberá que ele vai começar a tomar outro ritmo. Tente e me conte.

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Psicóloga graduada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Cursa Especialização em Sexologia na FMABC. Possui formação em Coordenação de Grupos na Abordagem Fenomenológica Existencial pelo Fenô​ƩGrupos, em Saúde LGBTQIA+: Práticas de Cuidado Transdisciplinar pelo Instituto SaúDiversidade e é multiplicadora em Educação Para Sustentabilidade pelo Núcleo de Estudos Avançados do Terceiro Setor (Parceria PUC-SP e Secretaria do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo).  ​ Psicoterapeuta em consultório particular, onde realiza atendimentos individuais para adolescentes e adultos. Supervisora clínica. ​ É colaboradora bolsista do NTU-FAI, Núcleo Trans UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) - Famílias, Adolescências e Infâncias. O ambulatório é responsável pelo acompanhamento de crianças e adolescentes com variabilidade de gênero, além do acompanhamento de suas famílias. Foi colaboradora voluntária do AMTIGOS-NuFor-iPq-HCFMUSP - Ambulatório Transdisciplinar de Iden...

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